Enquanto a versão de 1986 operava sob as rigidezes de sua época, a releitura de 2026 apresenta um protagonista que reivindica a sofisticação e o direito à vulnerabilidade do homem negro.

Existe um movimento silencioso, mas implacável, reconfigurando as estruturas do que entendemos por protagonismo no audiovisual brasileiro. Queiram ou não, desprestigiar os motivos ou não, a negritude na arte ocupa seu espaço e precisa estar em todas elas, não importa as intenções de seus agentes. Se em décadas passadas o “homem de época” era confinado a arquétipos de subserviência ou ao silenciamento de seus desejos, 2026, apesar de um Heathcliff branco escaldo pelo cinema no exterior, aqui o nosso negócio é uma ruptura necessária. No centro dessa transformação está David Junior.

  • A man wearing a black suit jacket over a white shirt, looking confidently at the camera with a serious expression.

Atualmente ocupando o mainstream global através da Max, David assume o manto de Antônio Sampaio no aguardado remake de Dona Beja. Mas não se engane: não se trata apenas de uma releitura de um clássico. É um ato de ocupação simbólica. Ao dar vida a um homem negro livre, detentor do intelecto e do motor romântico da trama, David não apenas interpreta; ele reescreve o imaginário do galã brasileiro sob a ótica da sofisticação e da vulnerabilidade. 

  • A confident man posing in a sleek, open white shirt and black trousers, holding a black jacket over his shoulder.

Nesta conversa exclusiva para a The Avant Garde, mergulhamos na densidade de um artista que compreende seu corpo como um território político em constante movimento. Com a clareza de quem estuda a filosofia Sankofa, olhar para o passado para ressignificar o futuro. David reflete sobre a responsabilidade de humanizar o homem negro para além do conflito social, celebrando a maturidade de uma carreira que agora desbrava a produção e a música.Entre referências que cruzam o oceano, da elegância britânica de Regé-Jean Page ao legado ancestral de Zózimo Bulbul,  David Junior nos recebe para falar sobre arte como política pública, a quebra do conservadorismo televisivo e a “sofisticação calma” que encontra na paternidade e na busca pela equidade. Prepare-se para conhecer o homem em uma jornada que prova que, na vanguarda, ninguém caminha sozinho.

TAG – Em Dona Beja, você ocupa um espaço que, historicamente, foi negado ou estereotipado para homens negros em produções de época: o do galã romântico, detentor do desejo e do afeto central. Como foi o processo de construção desse personagem para evitar arquétipos do passado e apresentar um homem que personifica a modernidade e a sensibilidade de 2026, mesmo dentro de uma narrativa histórica?

David – Busquei referências na nossa história. Apesar deste espaço ter sido negado a nós por muito tempo, seria leviano dizer que personificamos modernidade, já que a arte negra vem personificando beleza e delicadeza há décadas com nomes como Zózimo Bulbul, Norton Nascimento, Antonio Pitanga, Milton Nascimento, Antônio Pompeo, Abdias do Nascimento, Sidney Poitier, Will Smith, Denzel Washington, dentre tantos outros dignos de seu talento, beleza e arte.

Recentemente me encantei com a elegância de Regé-Jean Page em “Bridgerton”, mais uma série aclamada pelo público, da escritora Shonda Rhimes. Regé-Jean traz um refinamento, elegância e postura que está longe da subserviência estereotipada construída para os negros dramaturgicamente em um projeto de época. Foi esse caminho que busquei para construir Antonio Sampaio, um negro livre e com poderes e responsabilidades para com os seus.

TAG – A The Avant Garde acredita que a arte é uma ferramenta de política pública simbólica. Como você enxerga a sua responsabilidade artística ao ocupar o mainstream do streaming global (Max)? Você sente que sua presença em papéis de destaque ajuda a reconfigurar o “imaginário do sucesso” para a próxima geração de atores negros no Brasil?

David – Completamente. Eu me considero um corpo político em eterno movimento de desconstrução social. Para comigo e para os outros. Todas essas referências que citei anteriormente construíram meu imaginário e me possibilitaram ser quem sou, abrindo caminho quando tudo era mais difícil e dolorido. Se hoje posso ser visto como uma referência para as novas gerações, ter um alcance global é mais que uma honra, é uma missão de vida.

Pessoas negras e não negras, do Brasil e do mundo, precisam ter o direito de sonhar ser o que quiser, seja na atuação ou em qualquer outro departamento. Já passou da hora da equidade ser imposta socialmente, a divisão hierárquica de quem detém o poder é o que tem gerado guerras há séculos até os dias de hoje.  Espero com a minha arte ser um parafuso nessa engrenagem de mudança.

  • A couple sitting by a river, surrounded by rocks and greenery. The man, dressed in a vest and pants, gently holds the woman's face, who wears a light-colored dress and has long, wavy hair. They are sitting on the grass near the water, with a small waterfall visible in the background.
  • A man in period attire aims a pistol in a grassy field surrounded by palm trees, displaying a focused expression.
  • Behind-the-scenes shot of a film set featuring a camera crew and two actors in period costumes interacting.
  • A passionate moment between a man and woman, standing close together outdoors, with a blurred background of a building and trees.
  • A couple sharing a passionate kiss, embracing each other in a garden setting with a historical building in the background.

TAG – Bastidores e produção remakes de grandes clássicos sempre carregam uma carga de expectativa muito alta. Do ponto de vista técnico e criativo, qual foi o maior desafio em dar vida a essa nova versão de Dona Beja? Houve algum momento específico na produção onde você sentiu que a série estava, de fato, rompendo com o conservadorismo da versão original?

David – O fato de Antônio e João serem amigos que cresceram juntos no mesmo quilombo e, na vida adulta, ingressarem na política pelos mesmos ideais, lutarem pela liberdade de seu povo e disputarem a mulher amada, dando a eles o mote central da trama, pra mim rompeu por completo o conservadorismo da versão original. Tem vários outros fatores que transformam a versão atual numa releitura do que foi ‘Dona Beja’ da época e suas temáticas, mas vou me ater a essa para não dar spoiler do que vem por aí.

TAG – Na sua carreira, vemos uma transição para personagens que celebram a maturidade, a sofisticação e a vulnerabilidade. Para você, qual é a importância de humanizar o homem negro através do romance e do intelecto, e não apenas pelo viés do conflito social?

David – Humanizar é a chave. Faço terapia há alguns anos pra conseguir sair dessa jaula opressora que a sociedade eugenista quis me trancafiar, determinando que eu tinha que ser “coisificado” e negando minha própria humanidade. Vivenciar personagens com conflitos do cotidiano, vai de encontro com meu estado de espírito atual, que se educa para pertencer a esses espaços com naturalidade e sem culpa.

TAG – Ninguém caminha sozinho na vanguarda. Quais são os artistas — atores, diretores ou pensadores — que formam a sua base criativa hoje? Existe algum nome da dramaturgia (brasileira ou internacional) com quem você sonha em dividir um set para elevar ainda mais o nível do seu trabalho?

David – Tenho o orgulho de ter atuado ao lado de grandes nomes da dramaturgia brasileira e que são referência pra mim, como Milton Gonçalves, Elisa Lucinda e Marcos Caruso. Já trabalhei numa novela com Jefferson De, um diretor que se tornou um grande amigo. Contudo, ainda não dividimos um set de filmagem no cinema – mas ainda vou realizar este desejo. Spike Lee é um diretor que conheci assistindo “Mo’ Better Blues” e me apaixonei, seria um sonho trabalhar com ele. Jordan Peele e Ryan Coogler são dois diretores da minha geração que admiro o trabalho, quem sabe a gente consegue trabalhar juntos um dia?! Sonho atuar ao lado de Will Smith e Denzel Washington também.

TAG – Gostaríamos de conhecer o David além das câmeras. O que tem alimentado a sua alma ultimamente? Existe um livro, um álbum ou um destino de viagem que define o seu momento atual de maturidade e “sofisticação calma”?

David – Tenho adotado a filosofia Sankofa para minha vida, olhando para o passado com afeto, para construir meu futuro. Gravei recentemente uma música com Yuri da Cunha, um cantor angolano, intensificando meu estudo sobre a Diáspora que o tráfico transatlântico criou.

Meus últimos livros foram:

  • “A geração ansiosa”, de Jonathan Haidt
  • “Famílias inter-raciais”, de Lia Vainer Schucman
  • “O espírito da intimidade”, de Sobonfu Somé
  • “Arrume a sua cama”, de William H. McRaven

Assisti o documentário do Gilberto Gil e me emocionei com o legado construído por esse artista icônico da música, onde sua maior herança não estava nos álbuns e sim na FAMÍLIA. Emicida já dizia: “Eu sou o sonho dos meus pais, que era o sonho dos avós, que era o sonho dos meus ancestrais…”

Sou neto de seu Manoel da Cruz, um progenitor de 20 filhos, 26 netos, 14 bisnetos e casado por 76 anos com a mesma mulher, Edith Maria, sendo operador de máquinas numa fábrica de canetas. Essa é minha maior referência de sucesso que um homem pode ter, ser leal à sua família e aos seus. Minha sofisticação calma nasce com as minhas filhas. Assim que possível, gostaria de voltar com elas a Ilha de Boipeba, na Bahia, para apresentar a elas aquele paraíso à beira-mar.

TAG – O que podemos esperar dos seus próximos projetos? Existe algum gênero que você ainda não explorou — talvez a produção, a direção ou um roteiro autoral — que você pretende desbravar para continuar provocando mudanças na nossa indústria?

David Tenho me empenhado para produzir meus projetos no audiovisual e na música, não me limitando só a atuar. Quero contar histórias que eu me identifique e sinta que precisam ser contadas. Já fiz alguns convites para fortalecer esse movimento e uma grande referência pra mim na arte é o Emicida. Tô namorando fazer um trabalho com ele num futuro próximo, tomara que dê certo.

A nova versão de Dona Beja já é um dos grandes destaques do catálogo da Max (antiga HBO Max) neste início de 2026. Com uma proposta mais ágil e cinematográfica do que o folhetim original, a trama será contada em um total de 40 capítulos, que são lançados em blocos semanais de cinco episódios, sempre às segundas-feiras. Até este momento, os 10 primeiros capítulos já estão disponíveis para o público, permitindo mergulhar nas primeiras reviravoltas da história de Ana Jacinta em Araxá.

Fotos: HBO MAX e Márcio Farias

One response to “Entrevista: David Junior e a subversão do afeto em “Dona Beja””

  1. Avatar de ANNELISE MARIA GODOY
    ANNELISE MARIA GODOY

    Excelente entrevista. Trouxe um olhar inovador não só do entrevistado como foi personagem. Parabéns Sussuca. Parabéns David e a essa maravilhosa produção.

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