Jonathan Anderson, diretor criativo da Dior, é o homem do momento no mundo da moda. Afinal, no final do mês de janeiro o designer entrou em uma constante de sucesso, e apresentou sua segunda coleção masculina outono/inverno para a maison francesa. Alguns dias depois, participou da semana de alta-costura, sendo aplaudido por suas criações.

Desfile de moda apresentando quatro modelos masculinos usando diferentes estilos de blazers e calças pretas, com várias combinações de cabelos e acessórios.
Desfile masculino Dior inverno 2026 (Foto: Reprodução/ Vogue Runway)

Em entrevista, Anderson chamou atenção ao explicar que a coleção masculina 2026/2027 da Dior evocava e homenageava o famoso costureiro da primeira metade do século XX, Paul Poiret. Ele é uma figura essencial para a história da moda e reafirma a necessidade de saber sobre o passado para entender as referências do presente. Por isso: você, leitor, sabe quem foi Paul Poiret?

Retrato em preto e branco de um homem com chapéu e casaco claro, segurando algo em uma das mãos.
Foto de Paul Poiret (Foto: Reprodução/ Fabrics-Stores Blog)

Nascido em Paris no ano de 1879, o costureiro revolucionou a moda e a colocou, de pouco em pouco, nos moldes que conhecemos hoje. Foi o responsável por libertar o corpo feminino do uso opressivo do espartilho, e popularizar o uso do sutiã, ajudando as mulheres a respirarem melhor sem a necessidade de uma cintura extremamente marcada por debaixo dos vestidos.

O contexto histórico da França na época, entre o final do século XIX e a Primeira Guerra Mundial, chamado de Belle Époque, era caracterizado pela efervescência cultural e pela abundância econômica. Trajes ornamentados, silhuetas marcadas e uso de chapéus, acessórios e estampas luxuosas, faziam parte da moda da elite e ditavam a moda da época. Um exemplo desse estilo, que é extremamente vívido na mente dos apaixonados por cinema, são os figurinos do filme “Titanic”, protagonizado por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet.

Retrato em preto e branco de um homem com barba e um chapéu de marinheiro sentado, ao lado de uma mulher com um vestido elegante e um chapéu decorativo.
Rei Eduardo VII e sua esposa, Alexandra da Dinamarca em 1909. A rainha era considerada uma ‘it girl’ da Belle Époque (Foto: Reprodução/Getty Images)

Paul Poiret, sem anacronismos de hoje, viu o que estava além dos seus horizontes e começou a incorporar, em suas criações, o orientalismo. Apaixonado por outras culturas, ele integrou partes do vestuário oriental na moda ocidental, se baseando em países como Japão, China, Índia e Egito. Por volta do ano 1907, ele começou a substituir as cores chamadas de “pálidas”, por cores vibrantes, como roxo, vermelho, azul e verde.

Ilustração de três mulheres de costas, vestindo mantos coloridos e elegantes, com destaque para detalhes em dourado e pelagem.
Ilustração do “Les Robes” de Paul Poiret com Paul Iribe (Foto: Reprodução/ Fabrics-Stores Blog)

Sem o espartilho, as silhuetas foram ficando mais retas, e a liberdade, cada vez maior e mais chocante para os padrões do início do século XX. Sendo um grande entusiasta das artes plásticas, Poiret se cercou de grandes nomes, como Picasso, o ilustrador Paul Iribe e Henri Matisse, promovendo colaborações que viriam a misturar obras modernas em estampas de suas roupas. Um exemplo é o “La Perse”, cuja estampa foi feita por Raoul Dufy, “o pintor de cores alegres”.

Uma pessoa de costas usando um vestido largo com estampas florais em preto e branco, caminhando por um corredor antigo.
“La Perse”, 1911, Paul Poiret e Raoul Dufy (Foto: Reprodução/ The Dreamstress)

Em parceria com Iribe, Poiret também participou do catálogo ilustrado “Les Robes”, que revolucionou a alta-costura com a técnica pochoir, que usa stencil para criação de desenhos. Em 2026, Jonathan Anderson quis imprimir a energia das obras de Poiret em sua passarela da coleção masculina, apresentando cortinas de veludo na locação do desfile e tendo como tema o “flâneur moderno”.

Desfile de moda com quatro modelos apresentando looks diversos, incluindo casacos de pele e acessórios distintos, em uma passarela com público ao fundo.
Desfile masculino Dior inverno 2026 (Foto: Reprodução/ Vogue Runway)

Flâneur é um termo cunhado pelo escritor Charles Baudaleire, que traduz a figura de um homem francês – um boêmio – que vaga pelas ruas de Paris, caminhando sem pressa e analisando as características da modernidade na cidade. A palavra constrói a imagem de um andarilho poético, que com as novidades da energia elétrica, por exemplo, observa o mundo. Por isso, já no século XXI, a Dior quis ressoar o trabalho do costureiro francês apresentando uma coleção quase andrógena, onde os modelos caminhavam com roupas “estilo Poiret” na atmosfera da figura masculina do século XX.

Menos de uma semana depois, Anderson estreia na semana de alta-costura, com uma coleção voltada para o público feminino e com um tema bem menos urbano, onde a natureza e as flores deram o tom do desfile. E, apesar de Poiret não ter sido diretamente citado, o storytelling tem suas semelhanças: a cultura asiática não ficou de fora, dando espaço para referências do mangá japonês e da estética sul-coreana.

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