Protagonista do novo suspense da Netflix, o ator mergulha no trauma do Césio-137 em Goiânia, reflete sobre a vulnerabilidade masculina e revela por que o set é seu “habitat natural”.
Um rastro de contaminação invisível que começou em um ferro-velho e terminou em uma tragédia sem precedentes. Em 1987, Goiânia viveu o pesadelo do Césio-137, um capítulo real e doloroso que agora ganha as telas em “Emergência Radioativa”, série que estreou no último dia 18 de março na Netflix.
No centro desse turbilhão — onde o tempo é o único recurso mais escasso que a cura — está Johnny Massaro. Atuando como o fio condutor de uma trama que equilibra o rigor técnico da física com o desespero visceral das vítimas, Johnny reafirma por que é um dos artistas mais camaleônicos de sua geração. Ele não apenas interpreta; ele investiga as fissuras da alma humana diante do inimigo que não se pode ver, mas que se sente na pele.
Aos 20 anos de carreira, o ator que desafia convenções de gênero nos tapetes vermelhos e subverte o arquétipo do galã global, vive um 2026 de colheitas densas. Entre a brutalidade política de “Delegado” (gravada em Recife sob a chancela de Kleber Mendonça Filho) e a estreia de seu terceiro curta como diretor, “Consolo”, Johnny recebeu a TAG para uma conversa profunda sobre ética da representação, a “poética” do desespero e como a moda continua sendo seu território de liberdade.
TAG: Johnny, a série retrata o maior acidente radioativo do mundo ocorrido fora de uma usina nuclear, um evento que ainda é uma ferida aberta para muitas famílias em Goiânia. Como foi para você equilibrar a responsabilidade de interpretar uma história real tão dolorosa com a necessidade de criar um suspense que prenda o público?
Johnny Massaro: “Sinto que o ponto é justamente encontrar esse equilíbrio. Embora seja uma obra de ficção, estávamos lidando com dores reais e recentes. Não existe outro caminho senão pedir licença, redobrar a escuta, o estudo e o respeito.“
TAG: No trailer, percebemos que a série foca muito na “corrida contra o tempo” para identificar um inimigo que ninguém vê: a radiação. Qual foi o maior desafio em atuar em uma trama onde o maior perigo é invisível e o preconceito contra as vítimas acaba sendo tão letal quanto o próprio césio?
Johnny: “Fernando e eu sempre conversávamos sobre a medida do desespero dessa personagem: qual o melhor tom diante dessa tragédia? O que me fascina e aterroriza no Césio é justamente a contradição entre sua aparente inofensividade e beleza e sua letalidade invisível.“
TAG: Para a maioria de nós, a radioatividade parece um conceito abstrato. Como foi o seu processo de pesquisa para entender esse “inimigo invisível”? Você buscou relatos técnicos ou conversou com especialistas que atuaram na época?
Johnny: “Com certeza. Todo personagem pede algum nível de deslocamento. No caso da nossa série, precisei desbravar o campo da física. Tivemos acompanhamento de profissionais que atuaram em Goiânia na época: físicos, químicos, médicos. Além de visitarmos o Centro de Física da USP, que ainda guarda dejetos radioativos do acidente. Vi e li muito material, sem falar do trabalho diário com a Nara, nossa preparadora de elenco”.

TAG: Agora que a série já cumpriu seu ciclo de produção e chega ao público, qual a sua expectativa sobre o impacto dessa narrativa? Você sente que o trabalho como Fernando serve como uma espécie de reparação histórica?
Johnny: “Agora que a série vai estrear é que o ciclo começa a encontrar seu fim – ou um novo começo. Estou bastante feliz e confiante. Uma tragédia como essa não pode ser repetida, e a única maneira de não repetir um erro é conheê-lo. Acredito e espero que a série cumpra esse papel e ajude para que as vítimas tenham suas necessidades vistas”.
“O que me fascina e aterroriza no Césio é justamente a contradição entre sua aparente inofensividade beleza e sua letalidade invisível.”
TAG: A gente sabe que você se envolve muito com a estética dos seus papéis. O que você “roubou” (ou quase levou para casa, simbolicamente ou de fato) do guarda-roupa do seu último personagem por puro estilo? Alguma peça virou seu xodó?
Johnny: “Do Márcio, de Emergência, fiquei com um macacão todo branco que usávamos como base da vestimenta de segurança. Usei até na festa de encerramento da série! (risos)”.

TAG: Você se tornou um ícone de estilo por ignorar as fronteiras entre o masculino e o feminino nos tapetes vermelhos. Existe uma intenção de desestabilizar o olhar conservador do grande público, ou você simplesmente parou de se importar com o que o “mainstream” espera de um galã?
Johnny: “Na verdade, busco me sentir bem com o que estou vestindo. Independentemente das leituras, busco conforto”.
TAG: Você completou 20 anos de carreira e já sinalizou o desejo de migrar para trás das câmeras. O que exatamente no set, enquanto ator, ainda te dá um frio na barriga que a cadeira de diretor não consegue substituir?
Johnny: “A questão jamais será o set. Pelo contrário: o set é o meu habitat natural. O que me faz pensar em uma eventual pausa é que realmente sou apaixonado por direção, roteiro e produção, e também porque pode ser muito cansativo trabalhar com a autoimagem e tudo que vem daí – especialmente com o passar do tempo”.
TAG: Em 2026, vemos você também em “Delegado”, série gravada em Recife com equipe do Kleber Mendonça Filho. Como foi mergulhar nesse universo mais bruto e político?
Johnny: “Delegado” é uma série que me desperta muita curiosidade, enquanto ator, claro, mas também como espectador. Felipe é uma contradição interessante: sensível e humanista diante de um contexto bruto e político. O mergulho foi todo muito profundo, não só pelos meses que passei em Recife, mas também por encontrar uma equipe tão engajada em contar aquela história – segundo o próprio Kleber, um dos melhores roteiros que ele já leu, e eu também.
TAG: O que o Johnny diretor está planejando para o restante de 2026? Podemos esperar mais histórias focadas em relações humanas e vulnerabilidade masculina?
Johnny: Acabei de dirigir meu terceiro curta-metragem, “Consolo”, a história de um taxista, pai de família, que descobre um consolo imenso e ainda melado debaixo do sofá da sala. O filme é inspirado em um conto do Tobias Carvalho e tem Emílio de Melo como protagonista. A Clarissa Kiste, atriz maravilhosa que conheci e que é minha “dupla” em Emergência Radioativa, também faz o filme. Assim como em “A Cozinha” (disponível na Globoplay) o foco é continuar pensando sobre possibilidades de masculino.

A série “Emergência Radioativa” estreou mundialmente na Netflix no dia 18 de março de 2026. Com uma narrativa que une o suspense à reconstrução histórica rigorosa, a obra traz Johnny Massaro e Clarissa Kiste nos papéis centrais da trama sobre o Césio-137. Todos os episódios já estão disponíveis para maratonar na plataforma.
A minissérie tem direção geral de Fernando Coimbra, direção de Fernando Coimbra e Iberê Carvalho, produção de Caio Gullane e Fabiano Gullane, criação de Gustavo Lipsztein e produção executiva de Caio Gullane, Fabiano Gullane, Pablo Torrecillas e Ana Saito. O roteiro é de Gustavo Lipsztein, Rafael Spínola, Fernando Coimbra, Stephanie Degreas e Fernando Garrido.
Além de Johnny Massaro (Márcio) e Paulo Gorgulho (Orenstein), o elenco conta ainda com Tuca Andrada (Governador), Bukassa Kabengele (Evenildo), Ana Costa (Antônia), Alan Rocha (João), Marina Merlino (Catarina), William Costa (Darlei), Antonio Saboia (Eduardo), Luiz Bertazzo (Loureiro), Clarissa Kiste (Paula) e Douglas Simon (Souza), além das participações especiais de Leandra Leal (Esther) e Emílio de Mello (César).








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