Por acaso você já leu algo que, depois de algumas páginas, te fez pensar: “isso aqui já foi escrito imaginando a câmera“?
Capítulos curtos com diálogos rápidos, viradas estratégicas a cada vinte páginas, cenas que parecem storyboard… Você quase consegue ouvir o produtor de Hollywood dizendo “isso vai dar um ótimo filme”. E devo questionar: isso é um elogio… ou não?
Porque quando um livro parece roteiro, duas coisas podem estar acontecendo. A primeira é ótima: a narrativa é ágil, visual, cheia de ritmo. Você lê rápido, imagina tudo com facilidade e termina a história com a sensação de ter assistido a algo na sua cabeça. Já a segunda possibilidade é um pouco menos generosa: o livro está tão preocupado em funcionar como adaptação futura que esquece de funcionar plenamente como literatura.
Nos últimos anos, vários best-sellers têm essa energia quase cinematográfica — mesmo sem ainda terem sido adaptados. Quarta Asa, de Rebecca Yarros, por exemplo, tem batalhas, treinamentos, rivalidades e reviravoltas construídas como grandes cenas de ação. É fácil até demais imaginar dragões, arenas e confrontos sendo montados em CGI com uma trilha épica.

Outro caso interessante é O Segredo da Empregada, de Freida McFadden, que segue aquela lógica de thriller de edição rápida: capítulos curtíssimos, revelações calculadas, ganchos constantes. Cada final de capítulo parece quase um corte para comercial.
E tem também A Paciente Silenciosa, de Alex Michaelides, que constrói sua narrativa com o mesmo tipo de suspense psicológico que o cinema adora. Tem revelações graduais, clima claustrofóbico e um grande twist esperando o momento certo de entrar em cena.

Mas devo dizer que esse não é necessariamente um problema. O mercado editorial atual conversa o tempo todo com o audiovisual, já que livros viram séries, séries viram fenômenos e fenômenos viram novos livros. O ciclo está cada vez mais rápido.
Porém, existe uma pequena perda colateral nesse processo quando tudo começa a parecer pitch de streaming. A literatura tem vantagens que o cinema não tem, como tempo interno, linguagem, silêncio, nuance… Quando um livro abre mão disso para funcionar como sequência de cenas impactantes, ele pode ganhar ritmo e perder um pouco — ou as vezes muito— de profundidade.
Por outro lado, sejamos honestos: esses livros são incrivelmente fáceis de ler. Eles prendem, entretêm, e fazem você virar página atrás de página como se estivesse maratonando episódios. Então talvez a pergunta não seja se parecer roteiro é bom ou ruim. Talvez a pergunta seja: o livro funciona assim?
Se funciona, talvez a câmera imaginária na nossa cabeça não seja um defeito, e sim uma visão esperançosa de um futuro próximo. Um futuro onde acredito que leitores e expectadores tem experiências incríveis com a mesma história, quando a química de seus cérebros são modificadas na mesma intensidade e o mundo é um lugar melhor. Sendo sincera? Posso facilmente me acostumar com isso.


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