A nova obsessão de Ryan Murphy no Disney+ divide a crítica, mas acerta onde dói: o nosso desejo inconfessável de sermos “lindos de morrer” a qualquer custo e que mata de verdade.
Já pensou em tomar um “Ozempic” e… explodir? Não é força de expressão. A cena que abre “The Beauty — Lindos de Morrer” (disponível no Disney+) é o cartão de visitas mais impactante da temporada: em plena luz do dia, nas ruas de Veneza, um modelo que acabara de desfilar para a Balenciaga simplesmente entra em combustão biológica e explode diante dos olhos de turistas e fashionistas. O recado é claro: a perfeição física atingiu seu limite.

Na trama, supermodelos internacionais começam a morrer de forma misteriosa e perturbadora. Os agentes do FBI Cooper Madsen (vivido por Evan Peters, de Dahmer) e Jordan Bennett (Rebecca Hall, de Christine) são designados para investigar uma série de mortes misteriosas e descobrem a existência de um vírus que transforma pessoas em versões de uma perfeição física hegemônica, mas com consequências fatais. A investigação coloca os agentes na mira de uma organização secreta e perigosa que controla esse lucrativo — e letal — mercado da beleza absoluta.
O arquiteto por trás desse caos é Ryan Murphy, o showrunner que transformou o bizarro em sucesso de audiência. Murphy é o nome por trás de fenômenos como American Horror Story, Nip/Tuck (onde já mostrava a falta de ética da cirurgia plástica) e Ratched. Seu estilo é inconfundível: uma mistura de cenários impecáveis, cores fortes, cenas gráficas e uma fixação pelo que a sociedade rotula como “anormal”. Em The Beauty, ele volta ao seu tema favorito: a sátira ácida sobre o mercado da vaidade.

A recepção internacional foi um campo de batalha. Lucy Mangan, no The Guardian, descreveu o terror corporal como “delicioso”, celebrando o retorno de Murphy à boa forma. Em contrapartida, o Roger Ebert foi implacável ao dizer que a série entrega “muito sexo e violência para ideias mal cozidas”, enquanto o IGN a chamou de “bagunça gosmenta”.
Discordo da visão de que falta profundidade social. A crítica aqui não está em textos explicativos; ela está no que vemos. O mundo da obsessão estética é um mercado cruel e a série toca em feridas abertas: a vulnerabilidade de ser gordo, a relação entre raça e peso, e o pavor de envelhecer. Se a trama parece “nojenta”, é porque a nossa busca por uma beleza fabricada também é violenta. O pecado real do espectador aparece quando, no fundo, achamos que o corpo transformado ficou, sim, mais atraente. Nós compramos essa beleza — e esse desejo de transar com um corpo “perfeito” — todos os dias.
O luxo, o sexo e o descarte (ALERTA DE SPOILER)

O personagem de Ashton Kutcher, o bilionário Vaughn, é o tipo do vilão moderno que vende o “filtro do Instagram injetável”.
Há uma camada de crueldade no roteiro: Não é à toa que a trilha de Christopher Cross emoldura uma cena com um diálogo incrível e real sobre descarte humano. Dentro do carro, em uma troca densa, o personagem de Anthony Ramos joga a real: Cross foi o rei do Grammy, mas a MTV o aniquilou porque ele não tinha o “padrão visual” que o novo mercado exigia.

Para quem ama clássicos como “Sailing” e nunca soube dessa história, a série é um choque de realidade sobre como a indústria preferiu esconder um gênio porque ele não era “comível” pelo olhar. É a música suave de um artista que foi deixado de lado servindo de trilha para a barbárie estética de The Beauty. Se você nunca parou para pensar nisso, a crueldade do mundo real é muito pior do que na tela: se você não é atraente, você simplesmente não existe para o mercado.
No elenco, Evan Peters (o rosto de American Horror Story) entrega uma atuação contida como o protagonista que navega nesse caos. Já Ashton Kutcher, embora eu admire o humor dele, poderia ter sido mais perverso como magnata — ele é o rosto bonito de um negócio sujo. Mas o verdadeiro luxo dessa temporada é Isabella Rossellini. Ela traz uma sofisticação que eleva o nível da série e nos lembra o que é vanguarda de verdade.

Muitos comparam o visual ao filme A Substância, mas em “The Beauty”, o choque é funcional. Ele serve para mostrar que a violência contra o corpo é o que gera lucro. Se você acha os diálogos artificiais, talvez não esteja prestando atenção no que a imagem está gritando: a beleza que nos vendem não é apenas superficial; ela é letal.

A primeira temporada completa de “The Beauty — Lindos de Morrer” já está disponível no catálogo do Disney+. A série conta com 10 episódios que exploram os limites da estética e o custo humano da vaidade.


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