Cantora explora o apocalipse têxtil e o renascimento do amor em 10 faixas.

A cantora fluminense Claudia Amorim não está apenas lançando um álbum; ela manifesta arte sonora e conceito estético. Em Novos Tempos, a artista atinge sua plenitude na MPB ao abraçar o minimalismo cru e cruzar a fronteira onde a música, a moda conceitual e a performance dramática se fundem em uma única obra de arte viva.

A equipe da The Avant Garde dissecou minuciosamente a capa do novo disco, pois, fiel ao nosso DNA, não deixamos passar nada que consiga unir a arte contemporânea, o conceito filosófico e a vanguarda da moda.

A woman in an elaborate costume stands on cracked, dry earth, holding a bright red object in one hand and cotton branches in the other, under a dramatic sky.
Foto: Renam Cepeda

Guardiã do caos: o upcycling conceitual e a estética Mad Max

As imagens de Novos Tempos revelam uma performance cênica avassaladora, onde o figurino desenhado por Lorena Sender e conceituado pela própria cantora, dita o tom de um editorial de moda apocalíptico. Claudia surge descalça sobre um solo árido e rachado, sob um céu carregado de nuvens plúmbeas. A atmosfera evoca o colapso climático e a devastação do fim do mundo, e a indumentária da artista é a materialização perfeita desse caos.

A grande força desse figurino está na sustentabilidade através do upcycling, a técnica de alta-costura que reaproveita materiais existentes para criar peças novas de valor superior, sem gerar novos impactos ambientais. Lorena Sender explica a engenharia têxtil por trás do visual que veste a força de Claudia:

O figurino tem uma base em sustentabilidade e ele foi construído com materiais remanescentes do ateliê, que são os tecidos e aviamentos de coleções e outros figurinos recentes, ou seja, tudo novo. É um reaproveitamento, porém, com resíduos que ficaram sem uso, que são novos, porque eu trabalho com esse reaproveitamento.”, explicou a TAG.

A partir dessa filosofia ecológica, a estilista deu vida às duas peças principais que moldam a presença cênica da cantora:

  • A saia crinolina detonada: A peça-desejo do projeto carrega uma estrutura de crinolina e foi meticulosamente desenvolvida para passar toda a atmosfera dramática exigida por Claudia. Como pontua Lorena, ela tem uma estética “meio Mad Max, meio detonada assim… tem umas tiras que parecem umas cercas de madeira com arame farpado, à lá fim do mundo”, traduzindo visualmente a situação do planeta em crise.
  • O espartilho de seda pura: Contrapondo-se à textura destruída da saia e trazendo uma rigidez imponente ao tronco de Claudia, como uma armadura de sobrevivência, o corset em tom de ouro velho foi estruturado em seda pura, um material nobre de baixo impacto ambiental.

Para arrematar o visual idealizado pela artista, manguitos assimétricos e enrugados nos braços criam uma silhueta orgânica, enquanto uma gargantilha de fios pretos e pontiagudos emoldura o rosto com dramaticidade. A beleza editorial, marcada por uma forte sombra verde e cabelos presos em tranças embutidas, sela a imagem de Claudia como uma criatura tribal futurista.

O coração de crochê e o algodão

A person standing confidently in a dry, cracked landscape, wearing a unique outfit made from various materials, holding a flower in one hand and a colorful cloth in the other. A barren tree is visible in the background under a cloudy sky.
Foto: Renam Cepeda

A performance fotográfica de Claudia Amorim ganha força máxima na oposição dos elementos que ela sustenta em suas mãos, conectando a moda à arte conceitual. A pedido direto da cantora, Lorena confeccionou um adereço visceral: um coração tridimensional em crochê. 

Claudia o segura de forma dramática, com fios vermelhos que parecem escorrer organicamente por entre seus dedos, simbolizando a crueza e a urgência do sentimento.

Para equilibrar o peso da saia de “arame farpado”, a direção de arte inseriu na outra mão da artista um ramo seco com casulos de algodão branco. O algodão entra como a antítese perfeita para a destruição: representa a pureza têxtil na sua forma mais orgânica, a delicadeza que resiste à secura da terra e a promessa de que o futuro pode ser tecido novamente.

“Quando as pessoas sentem que podem perder tudo, o tempo que resta é usado para abraçar e dizer que amam. O amor está intimamente ligado ao fim e ao começo das coisas”, pontua Claudia.

O figurino e a identidade visual amarram essa urgência, mostrando que vestir a dor e a esperança é, antes de tudo, um ato político e artístico.

Arquitetura sonora: o minimalismo do violão

Smiling woman with shoulder-length hair wearing a beige turtleneck sweater, resting her chin on her hand.
Foto: Lucio Luna

Se visualmente o álbum choca e emociona através do design de moda, sonoramente ele se despe. Claudia tomou a decisão ousada de aliar sua bagagem de duas décadas e meia ao frescor geométrico de uma equipe majoritariamente composta por jovens mulheres musicistas.

Sob os arranjos e produção musical de Bruno Danton e Aline Gonçalves, a espinha dorsal do projeto é o violão cru, buscando inspiração direta na vanguarda do grupo Metá Metá e na crueza mística do clássico álbum Olho de Peixe, de Lenine e Marcos Suzano. A faixa “Sal da Terra”, de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, funciona como o manifesto poético que resume toda a costura conceitual e ecológica do disco.

Com preparação vocal refinada por Ana Priscila Lacerda, Claudia arrisca novas texturas, provando que sua maturidade artística é o território perfeito para a experimentação visual e sonora. Novos Tempos não é apenas para ser ouvido : é uma experiência estética total para ser vista, vestida e sentida na pele.






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