Ritmos como Hip Hop, Trap e Rap, diferente do que muitos ainda imaginam, encontram sim terreno fértil no cenário cultural de Cuiabá. Se por muito tempo esses gêneros foram associados quase exclusivamente ao eixo Rio-São Paulo, hoje a capital mato-grossense se firma como um palco efervescente para artistas que estão construindo suas próprias narrativas.
A TAG esteve presente no Baguncinha Live Session e bateu um papo com FX’o Gênio, ARMayck e Svmp sobre o cenário mato-grossense, o fazer musical e os próximos passos de suas carreiras.

Os três começaram cedo. Antes dos palcos, vieram os quartos e a curiosidade. Não só na música, mas também na produção. ARMayck, também conhecido como Dono das Ondas, deu os primeiros passos de por pura curiosidade: “Eu comecei a fazer música em casa, sozinho, explorando, tentando entender como funcionava o programa de música. Eu fui aprendendo, vendo tutorial no Youtube até que eu entendi como fazia”, conta.
Em muitos casos, a inspiração também vem de dentro de casa, literalmente. Svmp, que atua como produtor, cresceu em um ambiente musical: “eu comecei na música profissionalmente tem aproximadamente nove anos, mas eu desde criança já fui envolvido no ramo da música pela minha família, meu pai é artista, minha mãe também foi por um tempo”.
Cada artista desenvolve seu próprio processo criativo. FX’o Gênio explica que boa parte do seu método nasce do freestyle, quase como um grande brainstorm coletivo: o beat entra e a música começa a ganhar forma em tempo real. “A gente liga o rec e começa a jogar as ideias e em poucos minutos, grande parte da música está pronta. Eu sou um cara que absorve muito, seja filme, música, livro, outros artistas… me inspiro muito em outros artistas daqui, da cidade mesmo, as ideias vem a qualquer momento. As vezes eu tenho uma ideia do nada, já vou pro estúdio e começo a gravar”, explica.

Apesar do crescimento da cena, os artistas reconhecem que o caminho até aqui foi aberto por quem veio antes e que o reconhecimento ainda é desigual. “Tem uma rapaziada do rap muito das antigas daqui que com certeza pavimentou todas as estradas, mas a parada que acontece é justamente essa questão de só achar que tem música no sudeste. Isso é uma visãao muito mercadológica, porque tudo que aparece e está recebendo grana vem de lá e aparece pra gente daqui. Isso faz com que a gente crie essa concepção de que isso é ‘estar em alta’, sendo que boa parte dos artistas do mainstreaming nem conseguem sustentar a própria carreira. A gente costuma subvalorizar nossos próprios artistas”, explica FX.
E essa desvalorização não se limita aos artistas que estão no microfone. Dentro da indústria, os produtores ainda lutam por reconhecimento. “Os produtores musicais não são tão valorizados quanto deveriam ser. Hoje há movimentos de artistas, produtores e MC’s que entendem isso, mas ainda sim, o mercado ainda não entendeu que o produtor também é um artista, também merece reconhecimento e tem seus direitos. Tanto quanto o MC que canta. […] Sou produtor e também sou artista principal das minhas faixas, então todos os lançamentos que eu faço, eu performo como interprete, não só como produtor ou beatmaker”, afirma Svmp.
Para quem quer começar, o recado é direto: entender o próprio contexto, estudar e construir conexões. “Não adianta fazer música por fazer se você quer fazer dar certo. Você tem que ter seus objetivos, quais são os seus objetivos? Primeiro você tem que se aprimorar como artista, conversar com pessoas […] acho que o maior problema que um novo artista pode ter é achar que pode fazer sozinho, que a opinião dele ali já basta. E o pessoal daqui [Cuiabá] tem que apoiar mais, abraçar mais. Ainda tem muito preconceito. Acho que por isso muitos artistas acham que fazer sucesso aqui é loucura, mas é tempo, dedicação e esforço“, aconselha ARMayck.

Svmp reforça que o desafio vai além da produção musical, ainda existe uma barreira cultural. “Eu não vou vender um sonho para as pessoas, aqui é muito difícil conseguir relevância, mesmo tendo poucas pessoas fazendo. Ainda sim, não é muito bem aceito por ser uma cultura de rua, as pessoas ainda veem esse estilo de uma forma marginal. Hoje com a internet a gente consegue tirar esse preconceito das pessoas mostrando que a arte de rua também tem seu valor e diversas pautas sociais, que o rap e o hip hop traz como uma form de protesto”, diz.
Mesmo diante das dificuldades, parar nunca foi uma opção. Questionados sobre os próximos lançamentos, os artistas adiantaram o que vem por aí:
Svmp: “A gente planeja soltar um album de Trap esse ano. O album é do FX, mas eu participei na produção em grande parte das musicas e como interprete. Pretendo lançar um outro projeto que estou trabalhando a dois anos e alguns single com o Mayck”.
FX’o Gênio: “Ano passado a gente produziu diversas músicas, então tem mais de trinta músicas para sairem com outros artistas, já as músicas que eu canto, tem um albúm colaborativo entre a SUMAC e a Central Music, onde produziram a música Jetski da Melody e o albúm Estranho, do Matuê. Esse projeto tem seis músicas que vão começar a sair em abril”.
ARMayck: “Eu fui para São Paulo e gravei vinte oito músicas em dez dias, então tem bastante coisa vindo ai. Fiz um show em São Paulo também e fiz alguns projetos lá também, o projeto que estou planejando recentemente chama ‘A Revelação do Ano’”.

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