Lançada em novembro de 2025, a série “Ângela: Assassinada e Condenada” narra o feminicídio da socialite mineira Ângela Diniz, nos anos 70. Produzida pela HBO e dirigida por Andrucha Waddington, o figurino foi assinado pelo costume designer Marcelo Pies e é parte importante da construção da narrativa sobre feminismo e violência de gênero.

Baseada no podcast da Rádio Novelo, “Praia dos Ossos”, a minissérie reconstitui a vida e a morte de Ângela, que foi assassinada pelo então namorado, o empresário Doca Street, em 30 de dezembro de 1976 em Búzios, no Rio de Janeiro. O caso, que ganhou grande repercussão midiática na época, foi tratado pela justiça como um crime passional “em legítima defesa da honra” e se tornou um símbolo do feminismo brasileiro com o movimento “Quem Ama Não Mata”.
Diniz foi uma mulher à frente do seu tempo, desquitada, sexualmente livre e que lutava na justiça pela guarda dos filhos contra o ex-marido. Apelidada de “Pantera de Minas”, a socialite ocupava os jornais da época frequentando os círculos da alta sociedade, com sua beleza exuberante.

Na obra da HBO, portanto, o figurino é parte essencial para construção da personalidade da protagonista, sensual e ousada, mas também para reconstrução da atmosfera histórica de uma década marcada pela ditadura militar e pelos movimentos de contracultura. Em entrevista exclusiva para a TheAvantGarde, Marcelo Pies, figurinista da série conta um pouco sobre como foi o processo de vestir os personagens.
“Foi muito difícil achar referências da elite brasileira. Encontrei alguma coisa do que era chamado, na época, de high society. Tenho muitos livros de figurino dos anos 70, mas não foi suficiente, então consegui acervos online e referências dos Estados Unidos”, conta.

Para ele, a boate Studio 54, famosa em Nova York por ser frequentada por ricos e famosos, foi também uma grande inspiração. “As coisas demoravam um pouco a mudar, o que se usava no high society dos EUA era o que se usava no Brasil, com um pouco de atraso apenas. Essa elite viajava muito”, afirma Pies.

Enquanto Ângela estava em Belo Horizonte, Marcelo montou o guarda-roupa da protagonista de forma sensual, é claro, mas ainda dando um toque mais conservador do que ele chamou de “mãe” e “madame” que busca a filha na escola. Mas a partir do momento que ela muda para o Rio de Janeiro, sua intenção foi deixar o figurino bem mais esvoaçante, leve e transparente.
“Já quando ela vai para Búzios com Doca, vira uma coisa mais “praia” e “carnal”. Ela fica muito de biquini e passa a usar somente saídas por cima. 80% dos biquinis eu mandei fazer, para ter uma cara mais especial”, diz. Mas há uma exceção: em uma das suas pesquisas, Pies encontrou a informação de que no dia que foi morta, Ângela usava um biquini com estampa de um felino (não se sabe ao certo se era pantera, como ela, ou onça), mas por uma coincidência, uma peça vinda direto dos anos 70 parou em sua mão. E, por ironia, este biquini com estampa de onça que foi usado em um dos episódios.
“Para a moda praia encontrei uma foto do final dos anos 70 da jornalista e modelo Danuza Leão com Ricardo Amaral em que ela aparece usando um biquini de camurça, de couro. A partir disso, fiz um para a Marjorie com franjas, que aparece em um episódio”, relembra.

Os vestidos de festa, porém, também foram quase todos feitos exclusivamente para a série. “Esses vestidos longos de festa, quase todos eu mandei fazer. Tem alguns looks de dia, alguma coisa meio “Diana Von Furstenberg” que eu achei em brechó, mas a maioria foi feita. Até os tailleurs que ela usa para consultar o advogado”. Para os demais personagens, a maioria foi alugada em acervos de figurinos de época.

O profissional ainda ressalta a importância das roupas para ajudar a atriz Marjorie Estiano a entrar na personagem. Segundo ele, para encarnar uma mulher extremamente sensual ele tinha que promover através das roupas o espírito de “bombshell”, muito atraente, que a Ângela da vida real tinha. Pies queria que as roupas dela fossem levemente atemporais, com a cara dos anos 70, claro, mas que também não fosse um figurino datado. “Eu quis mostrar como ela vivia a frente de seu tempo. Ela quebrou muitos tabus, enfrentou muita coisa na sociedade, então quis trazer um olhar mais de agora para ela”, afirma.



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