O polêmico artista indo-britânico Anish Kapoor tem suas peças expostas na Casa Bradesco em São Paulo até o dia 15 de janeiro de 2025. Com curadoria de Marcello Dantas, as 19 obras que compõem a mostra Inflamação estão dispostas nos dois andares do espaço que faz parte do complexo Cidade Matarazzo (o mesmo que abriga o hotel Rosewood).
O percurso pode ser guiado através de uma narração na voz do curador disponível pelo aplicativo onde se reserva a entrada para a exposição (o MATA APP) e os votos dele são de que consigamos sair do campo visual e entrar no sensorial, emocional e reflexivo.
Spoiler: Ele encerra a narração da exposição afirmando que a obra de Anish é para explorar os limites do que a nossa percepção nos permite entender. E o porquê da exposição ser chamada “Inflamação” fica claro logo de cara, assim que nos deparamos com peças que parecem com inchaços, vísceras e sangue.
Apesar de que, segundo uma das guias do local, algumas pessoas afirmaram ver marshmallow e sorvete em algumas das obras, o que só serve para provar que nossa interpretação e compreensão estão sendo testadas e provocadas.
Escrever sobre essas obras é muito difícil, elas têm que ser vivenciadas mesmo. Afinal, sensações são particulares e descrever sensações é difícil assim como falar de fenômenos visuais. As fotos não “imprimem” a complexidade da percepção e as obras são sobre isso mesmo, percepção. Tem uma delas que é um buraco preto e em volta dele eu ouvi pessoas falarem: “É só um buraco preto”.
Enquanto outra chegou perto e disse que é um “pano preto” e mais uma afirmou que é um círculo pintado de preto na parede. Todos deram suas descrições da obra com muita convicção e isso tudo para descrever o que, em qualquer outro contexto, seria só uma bola preta numa parede branca.
Em algumas obras a compreensão é unânime e todo mundo concorda, mas em outras e normalmente nas que parecem mais simples, todo mundo discorda e não sabe dizer o que é.
Isso acontece em especial para as obras não tão literais do artista, as gigantescas que brincam com fenômenos e distorções do olhar, uma vez que ele é muito dedicado a estes fenômenos e aqui destaco a presença do que foi chamado “o preto mais preto de todos” (que já foi alvo de algumas controvérsias que não vou abordar aqui), um material que visto diretamente de frente parece com um bloco preto liso e visto da lateral revela formas orgânicas moldadas em sua superfície.
Imagem: Gustavo Moura
Imagem: Gustavo Moura
É especialmente interessante que a visão e percepção de cada um de nós seja desafiada, ao mesmo tempo de forma tão literal (com a plasticidade das obras “sangrentas” e inchadas) e tão teórica e tecnológica, com os círculos pretos que parecem buracos sem fim nas paredes e uma super lente vermelha que amplia e diminui as figuras que passam por ela. Todas elas são inflamação de alguma forma, todas elas pulsam e causam algum desconforto/dúvida ou estranhamento.
Elas podem parecer muito simples, mas não são. Ou são, eu não sei, depende… E essa é a graça.
E agora para as fofocas: Segundo burburinhos que ouvi durante minha visita, parece que foram 10 anos tentando programar uma exposição dele no País. E dentre as peças, a primeira delas pesa quase 7 toneladas e fica exposta no único lugar do prédio de exposição cuja estrutura ainda aguentaria o peso da obra, uma vez que o espaço de exposições é o antigo Hospital Matarazzo e as paredes estão nuas e cruas como prova da idade do local.
Outra curiosidade que ouvi de uma das guias é que de fato existe uma plasticidade natural de algumas das obras feitas em cera, uma vez que a cera transpira e isso faz com que ela possa alterar em forma e textura.
Note que nas imagens presentes, a prioridade é para os detalhes minuciosos das obras destacadas, mas elas ocupam espaços maiores do que eu saberia medir, são imensas.


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