Com a democratização ao acesso a conteúdos de moda através das redes sociais, muitas pessoas que antes não se importavam em tendências e marcas de roupa, agora passaram a achar extremamente importante se vestir de acordo com o que está sendo considerado estiloso no momento, já que a moda, segundo Daniela Falcão, grande jornalista e editora da Vogue Brasil “além de ser uma indústria, é um fenômeno cultural do seu tempo”.
Porém, esse movimento de começar a se interessar pelo seu estilo próprio acabou gerando uma outra problemática: achar que quem não se veste da maneira que a mídia está vendendo é brega.
Apesar de parecer óbvio, o que você considera brega pode não ser o que outro grupo considera brega, e vice versa. Contudo, como as pessoas que antes não se interessavam em moda, em sua maioria Geração Z, estão buscando as mesmas referências, — não com base em estudo, claro, mas sim no Tiktok e Pinterest — , criou-se um certo pensamento hegemônico do que se é considerado brega.

Exemplo a estética das famosas “piriguetes” das novelas da Globo dos anos 2010. Personagens como Bebel, personagem interpretada por Camila Pitanga na novela “Paraíso Tropical”, Lurdinha de “Salve Jorge”, vivida por Bruna Marquezine, e muitas outras eram representadas na televisão brasileira como “bregas” e “indecentes”, sendo vistas com olhares de desaprovação pelos telespectadores por serem fora da curva. A nova geração letrada de pseudo-referências jamais acharia bonito tamanha excessividade de adereços usados pelas personagens.
Quem se interessa por moda de verdade admira o diferente , pois sabe que é a partir dele que surgem olhares e percepções inusitadas dos grandes criadores das marcas de luxo famosas.
Pessoas que o estilo próprio consiste em vestir o que blogueiras que nem estudam moda e só postam roupas caríssimas usam, jamais entenderão o poder de se destacar na multidão e se divertir com o look pensado para agradar a si mesma. A impressão que passa, é que o “orgulho de ser básica” passou de ser apenas isso, agora se tornou “ser básica e ter direito de julgar quem não é”.
Em contraponto disso, cresce ainda mais a hashtag “FubangaCore” no Tiktok, que se desvincula desse anseio em querer ser básica e migra para o que foi por muito tempo considerado brega, o estilo das periguetes das novelas citado. Blusinhas com animal print, saias jeans curtas, botas, óculos coloridos e cabelo solto, é a tendência que está batendo de frente com a “CleanGirlAesthetic”.
Obviamente que esse movimento de julgar tudo que é diferente da sua percepção de brega surge de uma classe, em pseudo ascensão, que se inspira na elite — pasmem, a qual está pouco se importando se as classes populares estão achando o que eles estão vestindo brega ou não — e quer se sentir menos julgado possível.
Por isso, para evitar esse tipo de pensamento, é importante sempre analisar as subculturas de cada região, e como elas emergem de um ambiente repressor e sempre se reinventando. Talvez começar a estudar moda partindo desses pontos, para assim entender o que se é admirado hoje e como isso é um reflexo do consumo do indivíduo perante seu ambiente de captação de referências.

A verdade é que só é autêntico quem se veste olhando para si, e não para o celular. Ande na rua e veja as misturas de estampas, as diferentes texturas e combinação de cores que a população usa, e veja a infinidade de looks criativos existentes. Ande em um shopping de luxo e veja várias pessoas usando as mesmas cores, os mesmos tons, os mesmos cortes de roupa e as mesmas marcas.
Se ser autêntico é ser considerado brega por pessoas que se vestem todas iguais e tem medo de não estar dentro dos padrões que as grandes mídias, como a TV e as redes sociais estão vendendo, se permita sair do comum e experimentar.
Assim como existem referências para ser igual a maioria da população, também há uma grande lista de peças que quem acha que entende algo de moda considera feio. É importante ressaltar, que se você, sem perceber, é uma dessas pessoas que ama se sentir superior a outra, comece a pensar: Por que determinadas peças de roupas de lojas populares eu penso que são bregas assim que vejo e outras peças de marcas de alto padrão há uma excitação em julgar de primeira?
A realidade é que muitos estilistas famosos trabalhavam exatamente em cima do que era visto como exagero e descartável. Gianni Versace, Roberto Cavalli, Jeremy Scott, todos se destacaram por voltarem os olhares ao não óbvio.
Não sejamos hipócritas, somos extremamente influenciados pelas propagandas, marcas de departamento, de luxo, e reproduzir padrões de comportamento é muito comum, por isso se questionar sempre é algo que deveria ser recorrente na sua caminhada. “Será que isso é brega mesmo, ou eu apenas não estou acostumado a ver essa combinação de cores nas mídias?”. Pois assim entramos na autenticidade de cada um.
A pessoa que não consome conteúdo de moda de luxo, é mais tolerante com o estilo de outras pessoas justamente por não ter como referência a vestimenta da elite?
Claro que não é ruim se inspirar em outras pessoas para montar seu estilo, mas o ponto é exatamente esse, as pessoas não se inspiram mais umas nas outras, elas se copiam, e assim cria-se um mar de gente vestindo a mesma composição de roupa falando coisas sobre moda e como usar tal marca é brega sem que haja de fato uma base de boas referências para isso.
Estilo é algo próprio, não parece demais julgar o que uma pessoa está usando só porque não te agrada?


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