Não é novidade que o movimento Mandrake está inserido a algum tempo no território brasileiro como um todo, pois todas as vezes que se sai na rua, com certeza verá alguém com no mínimo um óculos Oakley e uma camisa de time usando um tênis 12 molas.
Porém, os que pertencem ao grupo sempre deixaram claro que ser Mandrake não é só a vestimenta e a ostentação, é também sobre uma cultura política e um lifestyle. Sabendo disso, o questionamento que fica é: como um estilo nacional tão marcante e singular é praticamente invisível aos olhos das grandes passarelas de moda do Brasil?
Na verdade, a resposta está na história do surgimento do movimento, que se inicia no final dos anos 90, com a introdução do funk nas periferias brasileiras, sendo o grande “boom” com DJ Malboro nos anos 2000 lançando os hits “Ela só pensa em beijar” e “Glamourosa”. Nesse momento, o termo “mandrake” ainda não era utilizado, quem ouvia funk e usava acessórios chamativos dourados eram simplesmente “funkeiros”, assim como quem ouvia metal e usava roupas pretas eram os “metaleiros”.
Já em 2010, com uma estética mais característica e consolidada nas ruas, os agora intitulados “chavosos” dominavam a cena contracultural brasileira, com letras expondo a violência desenfreada que sofrem as favelas, porém também com muitas canções expressando o orgulho de ser “favelado” e conquistar lugares na sociedade que antigamente jamais seriam possíveis. Mesmo sendo duramente criticados e marginalizados pela mídia por ser um movimento que batia de frente com a elite musical, o sertanejo, – e claro – por ser o que o senso comum considerava “música de pobre”, o grupo alternativo popularizou seu estilo, fazendo surgir a necessidade dos jovens da época de sair com um look “chave” para as festas noturnas.

O termo “Mandrake” e “Mandraka”, que significa basicamente ser descolado, se difundiu mesmo no vocabulário brasileiro em 2019, com o sucesso da música “Casal Mandrake”, de Mc Paulin e Mc Dricka, furando a bolha mais uma vez, porém agora com um grande aliado – ou inimigo –, a nova rede social sensação do momento, o Tiktok. O problema surge porque as pessoas não queriam mais somente estar com um look “chavoso” como em 2010, elas queriam ser mandrakes, o que esvaziou diversas pautas importantes em decorrência de vídeos virais se apropriando da estética, pois quem vive o movimento na pele sabe que ser Mandrake não é só uma questão de vestimenta, por exemplo, mas também é sobre ser contra o abuso de poder policial nas favelas, valorizar a cultura preta e querer quebrar o ciclo social de que quem vem de baixo não pode subir. “Cê não vive, por isso parece fantasia” (MD CHEFE, REI LACOSTE)
Precisa-se entender que não há nada de muito diferente no surgimento do movimento se comparado com outros estilos musicais, são cidadãos que se identificam uns com os outros e ouvem músicas que falam sobre suas vivências. A repulsa social com o estilo é decorrente de um pensamento preconceituoso a respeito da periferia, por isso há uma dificuldade tão grande em dar o reconhecimento aos mandrakes como grupo alternativo influente na moda brasileira.
Separamos aqui os principais adereços que compõe a imagem de um Mandrake ou uma Mandrake:
- Óculos Oakley
- Medusa
- Camisa de time ou do Brasil
- Correntes grossas douradas ou prateadas
- Tênis de molas
- Réplicas

Influência Internacional
Apesar do descaso nacional com o movimento, o cenário mundial já nota o imenso potencial que é o estilo e a estética da periferia brasileira.
O criador do jogo CyberPunk, Mike Pondsmith comentou recentemente que as favelas do Rio de Janeiro e São Paulo são os ambientes mais fiéis aos gráficos do jogo, o que chocou grande parte de seu público, que sempre associou o game com a cidade de Tokyo, no Japão, por ser um ambiente altamente eletrônico e com superpopulação. Contudo, fios expostos e qualidade de vida precária são características muito claras das periferias brasileiras, certamente não deveriam ser pontos a se admirar, visto que precarizam a vida de muitos, mas que influenciaram um dos jogos mais famosos da atualidade.
Recentemente também, muitos gringos estão utilizando camisas do Brasil e postando em seus perfis nas redes sociais com hashtags como “BrazilCore” e “BrazilianAesthetic”, andando pelas ruas de grandes metrópoles do mundo como Londres e Washington de verde e amarelo, – o que até dá um alívio em desvincularem as cores da bandeira com partidos políticos. Basta pesquisar no Tiktok pelas hashtags que irá encontrar centenas de vídeos de famosos da gringa fazendo uso da estética periférica brasileira.
A favela é referência de moda para o mundo porque os estrangeiros certamente não pensam que estão se inspirando em um estilo de “favelado”, sendo isso justamente o motivo pelo qual impede os brasileiros de valorizarem e abraçarem a causa, de fato fazendo a moda no Brasil ser entendida como arte que precisa de investimento e espaço. A autenticidade brasileira existe e está onde a maioria dos estilistas brasileiros menos olham, para o seu país e suas raízes.

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