Entre rufos históricos e cadarços refletivos, Herchcovitch explica como o figurino de “Hamlet” rompe a barreira do tempo para se tornar uma linguagem urbana e pulsante.

No coração de São Paulo, o icônico Edifício Copan torna-se palco para uma das tragédias mais intensas da dramaturgia mundial. A nova montagem de Hamlet – Sonhos que Virão, dirigida por Rafael Gomes e protagonizada por Gabriel Leone, não busca apenas encenar o dilema do “ser ou não ser”, mas redefinir como o clássico colide com a vanguarda urbana. Sob o olhar criativo de Alexandre Herchcovitch, o vestuário abandona o rigor de museu para se tornar uma linguagem viva, onde a herança elisabetana respira através de materiais tecnológicos e uma estética que já habita as nossas ruas.

Uma direção de cena que coloca Ofélia no alto de um teatro em ruína mesmo para representar sua morte nas águas, com um vestido deslumbrante e que compõe a cena, deveria mesmo vir de mentes brilhantes. Após conversarmos com a atriz Lua Dahora que integra o Coro e se desdobra em múltiplas funções, voltamos os olhos para o mestre da alfaiataria brasileira.

A man with a beard sitting on a chair, wearing a black hoodie and shorts, with one hand resting on his knee and the other on his ankle, in a minimalist black and white setting.
Foto: acervo pessoal

Sentamos com Alexandre Herchcovitch para entender como essa desconstrução do passado tornou-se a fundação para os sonhos de uma moda que é feita para estar na rua. Acompanhe:


Sussuca: Alexandre, você é um colecionador e um estudioso confesso da história do vestuário. Para este Hamlet, o quanto da sua pesquisa veio de bibliografias clássicas de figurino elisabetano e o quanto veio da “anatomia” de peças do seu próprio acervo técnico ou de roupas vintage que você desconstruiu ao longo dos anos?

Alexandre Herchcovitch: A marca sempre trabalhou muito com referência de construção histórica, principalmente elisabetana e vitoriana, mas reinterpretadas de forma atual. No Hamlet, o briefing já pedia justamente isso: não ser literal de época, mas misturar referências. Então a gente foi buscando elementos específicos de diferentes períodos e organizando isso de acordo com cada personagem, sem ficar preso a uma época só.

Sussuca: Muitas vezes, a roupa de 400 anos atrás era uma armadura social, cheia de camadas e restrições. Na sua pesquisa para a peça, como você decodificou a função utilitária daquelas peças (como golas, punhos e volumes) para que elas não pareçam apenas “fantasia”, mas roupas reais que fazem sentido no corpo do ator hoje?

Alexandre: A gente resolveu isso misturando direto códigos antigos com peças e materiais de hoje. Tipo rufos com regata de malha canelada, tafetá com nylon… e uma base mais cotidiana equilibrando esses volumes. A cartela mais neutra, com cinza e mescla, e alguns pontos de cor, também ajudou a tirar esse lugar de “fantasia” e deixar mais próximo de uma roupa possível.

Sussuca: Para a The Avant Garde, o lifestyle moderno exige praticidade, mas o teatro pede textura. Como foi a sua pesquisa de materiais para traduzir o peso e a nobreza de Shakespeare usando tecidos contemporâneos ou tecnológicos? Houve um processo de experimentação química ou de “envelhecimento” para chegar ao tom certo desse universo?

Alexandre: Esse contraste é o ponto principal. Tem rufos com cadarço refletivo, vestido clássico feito em nylon, todo mundo de coturno with meia canelada… é essa mistura de construção mais histórica com material e styling contemporâneo que define o figurino. Não teve um trabalho de envelhecimento em si, foi mais essa combinação que construiu o clima.

Sussuca: No seu processo criativo, você costuma “entrevistar” o personagem através da roupa? Como a sua pesquisa sobre a psicologia de Hamlet influenciou a escolha de cortes mais rígidos ou mais desestruturados, e como isso dialoga com a representatividade contemporânea mesmo tratando-se de vestimentas de séculos atrás?

Alexandre: A gente sempre parte do personagem. Entender o lugar dele na história e na cena guia todas as escolhas de corte, volume e construção. Alguns pedem estruturas mais rígidas, outros funcionam melhor com soluções mais soltas ou fragmentadas. O figurino acompanha esse movimento, ajudando a construir a presença e o comportamento de cada um em cena.

Sussuca: A sua marca própria sempre teve um pé na alfaiataria rigorosa. Para esta montagem no Nu Copam, como a pesquisa sobre a construção de roupas do século XVII dialoga com o que você desenha hoje para as ruas? Existe algum elemento técnico daquela época que você redescobriu e decidiu aplicar nas suas criações atuais?

Alexandre: Essa pesquisa conversa muito com o que a marca já faz. Em vez de reproduzir uma roupa do século XVII, o foco está na construção e em como esses princípios funcionam hoje. Isso já aparece bastante no que a gente desenvolve pra rua.

Sussuca: O título da peça fala de “sonhos que virão”. Como a sua pesquisa imagética projetou esse futuro? Você buscou referências em uma estética mais distópica ou se manteve fiel a uma pesquisa de “eterno retorno”, onde o clássico e o vanguarda se encontram?

Alexandre: Não foi pensado como um futuro distópico. É mais uma mistura de tempos mesmo. As referências históricas entram junto com elementos bem atuais, e isso cria esse lugar meio deslocado, que já sugere um futuro possível sem precisar ilustrar ele diretamente.

Sussuca: Para encerrar, olhando para a obra como um todo e para além do tecido: o que é que você, pessoalmente, mais gosta ou mais te fascina na história de Hamlet?

Alexandre: O que mais chama atenção é como a montagem, juntando figurino e cenografia, constrói esse deslocamento de tempo. Em alguns momentos o espectador é levado para um passado distante e, de repente, tudo parece atual. Existe uma oscilação constante entre essas camadas, que deixa essa percepção de tempo sempre em movimento.


O espetáculo “Hamlet – Sonhos que Virão” está em cartaz em São Paulo, no Nu Copam (Edifício Copan), e teve sua temporada estendida até o dia 03 de maio. Com direção de Rafael Gomes, a peça traz Gabriel Leone no papel de Hamlet e Susana Ribeiro como a rainha Gertrudes. O elenco estelar conta ainda com Eucir de Souza, Samya Pascotto, Fafá Renó, Felipe Frazão, Bruno Lourenço, Rael Barja, Daniel Haidar, Davi Novaes, Conrado Costa, Giovanna Barros e Lua Dahora.

Para dar vida a essa jornada sobre poder e loucura, foram desenvolvidas cerca de 40 peças de vestuário para os 13 atores que se desdobram em 28 personagens. O preciosismo visual conta ainda com adereços de Antonio Gomes, além de joias e coroas assinadas por Pedro Nart. Uma oportunidade única para conferir de perto o diálogo entre a estética de Alexandre Herchcovitch e a força da dramaturgia clássica.

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